Consultório na Rua realizou quase 150 atendimentos em 2018
As pessoas em situação de rua, que abandonaram suas casas e romperam os vínculos familiares, têm atenção especial da Administração, em Piracicaba. As condições as quais essas pessoas estão submetidas causam danos à saúde como desnutrição, dependência química e transtornos mentais, alguns dos problemas que são tratados pelo programa Consultório na Rua (CnaR). Desde 2016, quando foi implementado, o serviço cadastrou 306 pessoas. Em 2018, o CnaR atendeu 148 pessoas.

Equipe que vai até as pessoas em situação de rua é formada por assistente social, técnicos de enfermagem e cuidadora em saúde mental
O CnaR é gerenciado pela Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Saúde de Piracicaba. Conta com uma equipe multiprofissional (uma assistente social, técnicos de enfermagem e cuidadora em saúde mental), que desenvolve ações integrais de saúde frente às necessidades dessa população.
Com um veículo equipado, a equipe percorre locais com maior aglomeração da população em situação de rua, como a praça José Bonifácio. Além do atendimento, o CnaR desenvolve outras ações, como orientações sobre planejamento familiar, incluindo o aconselhamento do uso do anticoncepcional, orientações sobre saúde bucal, tuberculose e hanseníase, a importância da vacinação para doenças como hepatite, tríplice viral e influenza.
O secretário de Saúde, Pedro Mello, destaca a importância do equipamento para atender essa população que, pela sua fragilidade nas relações sociais, não faz uso do sistema público de saúde. “Essa população precisa ser contemplada, respeitando-se a perspectiva de universalidade do SUS. Precisa de um serviço pró-ativo, como o Consultório na Rua, que está sendo oferecido pela nossa rede”, ressalta Mello.
A coordenadora do serviço, Adriana Nicolau, ressalta que o CnaR insere a população nos equipamentos públicos de saúde. “As atividades desenvolvidas envolvem orientações em higiene e uso abusivo de substâncias psicoativas, ações preventivas e atendimentos imediatos de saúde, como consultas, curativos, exames clínicos e outros”, observa. “Essas ações garantem o controle epidemiológico de algumas doenças transmissíveis, possibilitando melhora na qualidade de vida da população em geral, interrompendo a cadeia de transmissão e evitando gastos públicos na intervenção de alta complexidade”.
RAIO-X – Do total de pessoas cadastradas no CnaR, 21% são mulheres e 79%, homens. Comparando com o ano de 2017, houve um aumento de 3% de mulheres em 2018. Quanto à origem, 53% da população em situação de rua é do estado de São Paulo, destes 58% (96 pessoas) são natos de Piracicaba e os demais das cidades da região (Campinas, Rio das Pedras, Rio Claro, Limeira, Charqueada, Americana e Santa Bárbara) e 30% dos usuários por motivos diversos não informaram sua origem.
A faixa etária de maior prevalência é de 20 a 49 anos, chegando a 78% da população em situação de rua, idade considerada de maior produtividade no mercado de trabalho. Outro dado relevante é a baixa escolaridade: 31,7% dessa população não chegou a concluir o ensino fundamental e 11% apenas completou a educação básica.
Há inúmeros fatores que levam uma pessoa a viver na rua. 40,09% declararam desentendimento familiar ou perda do vínculo devido a dificuldades de convivência; 11,1% ficaram desempregados e a rua foi a única opção de moradaia e sobrevivência; 11,1% fazem uso de substâncias psicoativas; 10,5% estão nas ruas por vontade própria, e 24,8% não quiseram informar o motivo de estarem na ruas.
O uso do álcool é muito comum na população em situação de rua, chegando a 76% dos cadastrados no CnaR (180 pessoas). Ficou constatado que a utilização do álcool está relacionada ao baixo custo de aquisição e para suportar a dinâmica das ruas. Entre as doenças mais comuns diagnosticadas na população atendida está a hipertensão, diabetes, tuberculose, HIV, hepatite C, sífilis e transtorno mental.
DEDICAÇÃO E CONFIANÇA – A equipe do CnaR, no entanto, tem um trabalho árduo para concretizar esses importantes atendimentos, já que a população em situação de rua, muitas vezes, se recusa em dar continuidade aos tratamentos e não aceita sua enfermidade. Outros ainda se mostram pouco confortáveis por pensar que vão ser internados.
Paulo, 47 anos, piracicabano, e sua companheira, Naira, valorizam o trabalho prestado pelo CnaR. “Tenho respeito por esse trabalho e pelas orientações que recebemos sobre os melhores caminhos a seguir”, disse Paulo, que está em situação de rua há um ano e vive na praça José Bonifácio. Seus problemas estão relacionados à dependência de álcool. “Me sinto bem aqui. Fiz amigos e vou seguindo minha vida”, minimiza.
Adriana, 44 anos, 10 deles vivendo nas ruas, também é uma das atendidas pelo CnaR. Ela buscou as ruas após desentendimentos familiares. Seu desejo, sob as orientações da equipe do CnaR, é abandonar o vício em álcool.
